Mara Valdo tem mandato cassado pela Câmara de Dois Córregos; Vereadora alega “perseguição política” de seu próprio grupo e tentará recurso
“Tenho quase 50 anos de idade. Estou há 30 anos na política. Estou há 30 anos dentro de uma família política que me convidou para ser candidata. Quando saí para vereadora, fui eleita já no primeiro mandato e agora já estou no quarto. Por que será? Só quero trabalhar pelo povo. Chega de perseguição política! Estou revivendo uma história de cassação de mandato na época do Rui Fávaro que era prefeito, que tivemos que ir naquela tribuna e defender ele por perseguição. Defendi o Rui Fávaro naquela tribuna, dei meu sangue. Quando chega a minha vez de ser candidata através da promessa dele, ele me passa a perna e coloca o tio dele pra ser candidato. Me humilharam e me fizeram motivo de chacota.” – Vereadora Mara Valdo (PSD).
Por 7v2 votos, a vereadora Mara Silvia Valdo (PSD) teve seu mandato cassado pela Câmara Municipal de Dois Córregos, em sessão extraordinária ocorrida na noite desta segunda-feira (22). Mara foi acusada que quebrar o decoro parlamentar em uma representação assinada pelo autônomo José Rubem Santos Reis, autor da representação que deu origem à Comissão Processante contra a parlamentar.

O denunciante acusa Mara Valdo de se auto beneficiar através de uma emenda impositiva destinada ao Projeto Coragem. Fundado em 1º de dezembro de 1993, o Projeto Coragem é uma organização social sem fins lucrativos que atende crianças, adolescentes e jovens em vários programas e serviços sociais, culturais e profissionalizantes. Atualmente, cerca de 700 crianças, adolescentes e jovens são atendidos gratuitamente pela instituição, que oferece atividades de assistência social, reforço educacional, cultura, musicalização, esporte, lazer, qualificação profissional e preparação para o mercado de trabalho. Além de Dois Córregos, o atendimento também beneficia moradores do distrito de Guarapuã.
Mara Valdo é uma das fundadoras do projeto. A denúncia chama a atenção para o fato de a vereadora destinar emendas impositivas ao Projeto Coragem e, com o recurso de uma das emendas, a organização teria adquiquido uma remessa de tintas em estabelecimento comercial pertencente à própria vereadora. A nota fiscal no valor de R$ 460,40 (quatrocentos e sessenta reais e quarenta centavos), referente a compra realizada em 30 de julho de 2021, foi anexada na representação.
“Fato que demonstra, de maneira objetiva, que recursos próprios foram utilizados de modo a gerar vantagem econômica direta à parlamentar, ainda que por via indireta. A sequência fatídica evidencia que a denunciada indicou verba, influenciou sua execução e figurou como fornecedora dos bens adquiridos, configurando situação de evidente conflito de interesses e utilização do mandato para fins privados”, diz a representação.
A denúncia ainda aponta que uma empresa ligada à familiares de uma ex-presidente e atual coordenadora do Projeto Coragem, Mara Silvia Haddad Scapim, também teria sido contratada através do recurso da emenda impositiva destinada por Mara Valdo. A representação faz um paralelo, alegando que há forte vínculo de amizade entre a vereadora e a ex-presidente, cujo familiar teria sido beneficiado com a contratação.
“Tal circunstância revela que os recursos públicos circularam dentro de um núcleo restrito de pessoas interligadas por vínculos pessoais e familiares, sempre a partir de emendas da mesma Vereadora, configurando verdadeira cadeia de favorecimento, incompatível com a moralidade administrativa e com o exercício regular do mandato parlamentar em termos objetivos, na recondução indireta de recursos públicos ao patrimônio ou esfera de influência da própria agente política, configurando situação incompatível com os princípios da Administração Pública”.
Defesa e votação
Bastante emocionada, Mara Valdo usou a tribuna antes da votação para alegar que sofre perseguição política de seu próprio grupo. Segundo ela, tudo começou com a promessa de que ela seria a candidata à prefeita do grupo nas eleições 2024, mas a promessa que teria sido feita pelo ex-prefeito, Ruy Favaro, não foi concretizada: Tião Mazziero foi o nome escolhido e se sagrou prefeito de Dois Córregos.
Com isso, Mara Valdo alega que foi “iludida e passada para trás”. Por ter mudado seu posicionamento de situação junto ao atual governo, realizando cobranças à administração, diz que acabou sendo perseguida politicamente. Nas eleições 2024, Mara Valdo foi a segunda parlamentar mais votada, contabilizando 968 votos válidos. Ela iniciou sua vereança em 2012 (373 votos). Em 2016 conquistou 530 votos e, em 2020, foi a candidata mais votada com 840 votos.
Apenas os vereadores Humberto Soffner (PL) e Trevisan (Republicanos) foram contrários à cassação. Votaram favoráveis à denúncia Cristiane Munhoz (PL), David Mendes (PSB), Elaine Scarpin (MDB), Jô Amaral (PSD), Gatão (MDB), Maurício Ferro (PSD) e Vi Oliveira (Republicanos).

A cadeira de Mara será ocupada pelo primeiro suplente do PSD, Professor Mauricio Ferro. Ao Noticiantes, a vereadora confirmou que vai acionar a Justiça para recorrer da decisão.
“Dois Córregos amanhece em Luto! A pior injustiça que poderia acontecer dentro de um cenário político e da história da política. Vereadora do PSD sendo cassada pelo próprio Partido político por trabalhar incansavelmente pelo povo. Por lutar pelos direitos da entidade Projeto Coragem, com 700 usuários. Por ser presidente da Associação dos Autistas, com quase 300 famílias. A maior perseguição política de todos os tempos vinda de um grupo político que já está a anos no poder – o qual fiz parte por 30 anos. Vamos recorrer.”, disse Mara Valdo em nota enviada à nossa reportagem.















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