Tragédia aérea em Bariri: Queda de ultraleve que deixou duas vítimas fatais pode ter sido causada por problema de saúde de piloto durante voo, sugere especialista em aviação
Uma triste notícia tomou as manchetes regionais no último sábado (26): a queda de um avião ultraleve, modelo Trike Adventure 2023, deixou duas vítimas fatais na zona rural de Bariri. A aeronave caiu por volta de 13h50, em uma propriedade rural localizada no bairro dos Alves. O piloto e proprietário do ultraleve, Luis Cláudio Galassi Cunha, 54 anos, e o passageiro Luiz Carlos Aguilhari Junior, 42 anos, morreram no local. Ambos eram moradores de Bauru.
O ultraleve é uma categoria de aeronave leve e pequena, projetada para transportar apenas um ou dois passageiros. Essas aeronaves são conhecidas por sua agilidade, baixo custo de operação e facilidade de pilotagem.

A ocorrência mobilizou equipes do Corpo de Bombeiros de Bariri, Polícia Civil, Polícia Militar e Polícia Científica. A aeronave pegou fogo instantes após a queda, fator que carbonizou os corpos das vítimas. O fogo se espalhou rapidamente pela área e queimou um perímetro considerável do solo tomado por resíduos de cana-de-açúcar.

As autoridades reportaram o caso à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e à Força Aérea Brasileira (FAB), que através do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), enviou agentes ao local para investigação.
Em nota enviada à nossa reportagem, o Cenipa confirmou que um relatório oficial sobre o acidente deve ser disponibilizado em breve. A investigação, no entanto, ainda não havia sido concluída até o fechamento desta edição.
“A Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), informa que, no último domingo (27/07), foi finalizada a Ação Inicial envolvendo a aeronave de matrícula PS-LCG, na zona rural de Bariri, pelos investigadores do Quarto Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Seripa IV), órgão regional do Cenipa. O Cenipa informa ainda que, com a conclusão da Ação Inicial, os elementos essenciais para análise da investigação foram coletados pelos investigadores e a área encontra-se pelo Centro. A investigação dessa ocorrência aeronáutica continua, com o levantamento de outras informações necessárias, a fim de identificar os possíveis fatores contribuintes”, diz o pronunciamento oficial.
Para entender melhor os motivos que podem ter ocasionado a queda do ultraleve, o Noticiantes conversou com exclusividade com Jocafe Schiavon, piloto com experiência de 35 anos em aviação e quase quatro mil horas de voo. Jocafe fez parte da primeira diretoria do Aeródromo Municipal Apparecido Osório da Silva, estando presente no aeroporto de Bariri desde sua fundação, em 1988.
Amigo pessoal de Luis Cláudio e Junior, Jocafe foi uma das testemunhas ouvidas pelos agentes do Cenipa. Segundo ele, ambas as vítimas eram pilotos experientes. Ao saírem de Pederneiras (local onde o ultraleve estava acomodado), Luis Cláudio e Junior voaram até Bariri, fizeram um sobrevoo na vertical do município e, na sequência, uma passagem de baixa altura na vertical da pista. Também conhecida como aproximação de baixo ângulo, a manobra envolve a descida da aeronave com um ângulo acentuado, próximo à pista.
Jocafe foi a última pessoa a ver o piloto e passageiro do ultraleve com vida; Luis Cláudio e Junior almoçaram com ele antes da fatalidade. Após o almoço, Jocafe chegou até mesmo a filmar a “saída com proa” da aeronave, minutos antes da queda fatal. Em aeronáutica, “saída com proa” refere-se à direção para onde o “nariz” da aeronave está apontando no momento da saída de uma área.
“Eu filmei e os acompanhei pelo rádio. Eles fizeram um voo de baixa altura vertical na pista e pegaram a proa com destino retorno para Pederneiras, onde era baseada a aeronave. Tudo leva a crer que o piloto em comando (Luis Cláudio) passou mal e caiu sobre o painel de comando. O Junior, que estava de passageiro, não conseguiu retomar o controle da aeronave, que desceu na vertical com o motor a plena potência e entrou de nariz no chão, vindo a explodir na sequência. Acredito que não houve falha mecânica”, diz Jocafe.
Diferentemente da informação inicial divulgada pela imprensa, para Jocafe o ultraleve não tentou fazer um pouso forçado, já que estava com o motor em pleno funcionamento no momento da queda. Ele chegou a esta possibilidade após analisar o vídeo da queda da aeronave, gravado por uma testemunha do acidente.
O piloto explica que, quando ocorre um pouso de emergência malsucedido, normalmente, a aeronave bate uma das rodas no chão, depois bate a outra – fator que deixaria um rastro no solo. No entanto, na área onde ocorreu a queda, não havia nenhuma marca.

Após liberação da área pela Cenipa, Jocafe recolheu os restos do ultraleve, avaliado em aproximadamente R$ 230 mil. Outra hipótese levantada, a de que a aeronave poderia ter sofrido uma quebra de comando com parada de motor, também foi descartada, por conta do estado de destruição em que ficaram as hélices do ultraleve.

Avaliado em aproximadamente R$ 15 mil, o conjunto de hélices da aeronave é feito de alumínio aeronáutico e fibra de carbono, uma das tecnologias mais avançadas que existem no mercado. Jocafe explica que, se a queda tivesse ocorrido com o motor parado, as hélices do ultraleve não teriam sofrido tamanho estrago. Para ele, o fato de o ultraleve estar com a matrícula vencida na Anac também não teria influenciado a queda.

Em consulta à matricula do avião no Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB), consta que o ultraleve fabricado pela empresa Trike Icaros Indústria Aeronáutica Ltda., foi adquirido por Luis Cláudio Galassi Cunha em 12 de julho de 2023. A aeronave modelo Adventure pertence à classe “pouso convencional / 1 motor convencional”, com peso máximo de decolagem em 495 Kg. O Certificado de Verificação de Aeronavegabilidade (CVA), data de 28 de junho de 2024, ou seja, estava vencido há um ano. Com isso, a Situação de Aeronavegabilidade do modelo consta na Anac com o status “suspenso”.
O CVA é uma espécie de “licenciamento” do avião. É um documento emitido pela Agência Nacional de Aviação Civil, que atesta que uma aeronave atende aos requisitos de segurança e manutenção exigidos para voar. O CVA vencido impede que os familiares de vítimas de tragédias aéreas solicitem o seguro do acidente, por exemplo.
Junior chegou com vida ao solo e tentou tirar Luis Cláudio da aeronave antes da explosão
Outras testemunhas que presenciaram o acidente, relataram que viram o momento em que o passageiro, Luiz Carlos Aguilhari Junior, saiu do ultraleve após a queda. Ao sair do avião, ele teria retirado o capacete e ido imediatamente até o piloto em comando, Luis Cláudio Galassi Cunha, que ainda estava na aeronave.

A testemunha alega que Junior, sem capacete, foi até Luis Cláudio instantes antes dos dois tanques do avião explodirem. Com o impacto, Junior foi arremessado e veio a óbito logo depois que o fogo se alastrou. O capacete utilizado por Junior, praticamente intacto, foi recolhido por Jocafe.
Luis Cláudio é cremado em Uberlândia
Natural de Uberlândia-MG, o corpo de Luis Cláudio Galassi, proprietário do ultraleve, foi transportado de avião até sua cidade natal.

Ex-vereador e empresário Luís Cláudio iniciou sua trajetória política como candidato a vereador em Uberlândia pelo PSDB, em 2012. Embora não tenha sido eleito, conquistou votos suficientes para se tornar suplente e, em 2 de fevereiro de 2015, assumiu uma cadeira na Câmara Municipal substituindo Felipe Attie que foi eleito deputado estadual. Ele declarou que doaria 100% do salário do mandato para instituições filantrópicas de Uberlândia, buscando exemplo de política honesta e transparente.
Em 2016, enquanto era vereador pelo PSDB, Luís Cláudio Galassi protocolou um pedido de cassação do então prefeito Gilmar Machado (PT) perante a Câmara Municipal. A acusação envolvia crime de responsabilidade, com base na recusa da Prefeitura em apresentar informações sobre repasses da Fundação Saúde (Fundasus).
“Estou desolada. Um pedaço de mim consegue sentir a alegria por ter vivido com você o que muitos sequer imaginam ser possível. Não existe palavra que expresse minha dor. Eu te amo além da vida e prometo te honrar a cada passo. Sinto sua falta a cada segundo”, publicou a esposa de Luis Cláudio nas redes sociais.
Luís Cláudio era neto do ex-prefeito de Uberlândia, Virgílio Galassi, deixa esposa e dois filhos. Ele foi velado no Cemitério Buritis e cremado em sua cidade natal na tarde de segunda-feira (28).
Junior é sepultado em Bauru
Luiz Carlos Aguilhari Junior foi sepultado na manhã de segunda-feira (28), no Cemitério São Benedito, em Bauru. O velório ocorreu na sala 4 do Centro Velatório Terra Branca.
A mãe de Junior também usou as redes sociais para prestar uma homenagem ao filho.
“Filho amado, como dói, você estava tão feliz hoje de manhã antes e depois de voar até Bariri, mas Deus quis você com Ele. Esses dias, falei para você parar de voar que era perigoso e você me respondeu: Eu amo voar, se eu morrer voando, morrerei feliz! Juninho, te amo muito. Gratidão por todos os momentos que passamos juntos. Deus, obrigada por me permitir e ter o privilégio de ter tido um filho bom, guerreiro, alto astral, positivo, verdadeiro (ele sempre falava que meu café era ruim, sem açúcar). Com muito amor no coração. Te amo até a eternidade", diz a publicação feita no Facebook.





“Filho amado, como dói, você estava tão feliz hoje de manhã antes e depois de voar até Bariri, mas Deus quis você com Ele. Esses dias, falei para você parar de voar que era perigoso e você me respondeu: Eu amo voar, se eu morrer voando, morrerei feliz! Juninho, te amo muito. Gratidão por todos os momentos que passamos juntos. Deus, obrigada por me permitir e ter o privilégio de ter tido um filho bom, guerreiro, alto astral, positivo, verdadeiro (ele sempre falava que meu café era ruim, sem açúcar). Com muito amor no coração. Te amo até a eternidade", diz a publicação feita no Facebook.











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