“Perseguição velada”, diz LAV: Entidade solicita auditoria ao MP, imagens de suposta intimidação de servidora em supermercado, além de rebater “média alterada” citada por Prefeitura de Bariri, sobre quantia de alimentos por criança

“Perseguição velada”, diz LAV: Entidade solicita auditoria ao MP, imagens de suposta intimidação de servidora em supermercado, além de rebater “média alterada” citada por Prefeitura de Bariri, sobre quantia de alimentos por criança

“Diante dos recentes apontamentos e da desconfiança manifestada pelo Poder Executivo em relação à atuação do Lar Amor e Vida (LAV), sugerimos a imediata abertura de auditoria na instituição, com o objetivo de averiguar qualquer indício de desperdício ou irresponsabilidade no uso de recursos públicos.” Lar Amor e Vida em notícia-crime protocolada no Ministério Público.

O desentendimento entre Prefeitura Municipal de Bariri e Lar Amor e Vida (LAV) parece estar longe de acabar. Na última semana, a entidade que presta os serviços de acolhimento provisório para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social e familiar, rebateu números e dados passados pela Diretora de Finanças, Silvia Candido, durante uma entrevista ao jornalista Alcir Zago no programa “Bom Dia Cidade” da 91 FM (Sistema Belluzzo de Comunicação), classificando os dados como “equivocados”

Na entrevista, Silvia e o prefeito Airton Pegoraro (Avante), declararam que nunca acusaram a entidade, apenas questionaram a quantidade de alimentos solicitada pela LAV através do Programa Alimentar Municipal (PAM). De acordo com Silvia, assim que a requisição da LAV chegou ao Financeiro, ela fez uma planilha onde calculou a média do número de crianças atendidas em relação a quantidade de alimentos solicitada para o período de três meses.

“Estava uma média alterada. Eu não sou nutricionista, mas temos uma nutricionista da rede que tem conhecimento. Ela olhou e disse que realmente estava acima. As crianças que estão em idade escolar, têm a merenda na escola e também no contraturno, pelo Espaço Amigo. Os que estão na creche, em período integral, se alimentam na creche. Então, fomos questionar isso. Estava dando mais de um pacote de arroz por mês, por criança; um número muito alto de quilos de carne, leite, tudo isso. Quando veio a requisição, o que me chamou a atenção foi que, haviam nove crianças de Bariri, mas foram solicitados: 450 litros de leite; 36 kg de cebola; 72 litros de bebida láctea (iogurte); 36 pacotes de arroz; 18 pacotes de açúcar. Nós não nos negamos a repassar, mas entendemos que tem que ser justo dos dois lados”, declarou Silvia.


Em resposta à Diretora de Finanças, a diretoria do Lar Amor e Vida publicou, nas redes sociais, mais uma nota oficial questionando os dados passados por Silvia durante a entrevista. 

“Durante entrevista transmitida por uma rádio local, declarações do Poder Executivo causaram preocupação e indignação entre representantes da Lar, Amor e Vida (LAV), especialmente no que diz respeito ao funcionamento do PAM e ao atendimento prestado a crianças em situação de acolhimento institucional. Em nota, a prefeitura questiona o valor mensal atualmente repassado pelo PAM – R$ 5.812,38 para nove crianças – o que representa aproximadamente R$ 21,53 por criança/dia, ou cerca de R$ 4,31 por refeição. Perguntamos à administração pública: em qual lugar do município é possível oferecer um café com leite e pão, ou um almoço completo, por esse valor?”, questiona a LAV.


Na sequência, a entidade pega alguns números passados por Silvia Candido e rebate a diretora fazendo o cálculo por consumação diária de cada criança.

“Um dos pontos levantados pelo Executivo foi a entrega de 450 litros de leite para três meses – o que segundo cálculos da equipe da LAV, representa apenas 0,555 litro por dia por criança. Deve-se considerar as necessidades de crianças e o uso do leite em outras preparações alimentares, como bolos, purês, tortas e panquecas. Basta comparar os cardápios servidos nas escolas e o que é oferecido pelo acolhimento institucional. Vale ressaltar que o Executivo também abordou que a profissional de Nutrição da Prefeitura analisou o quantitativo dos itens contemplados pela LAV e esta concluiu exorbitância financeira, contudo, faz-se necessário esclarecer que o valor por criança com relação às merendas escolares (dados do exercício de 2023) é similar ao valor apresentado pela LAV”.+

 

Indenização moral coletiva

Outra situação relatada pela LAV diz respeito a uma espécie de campanha de difamação, supostamente ocorrida nos bastidores do paço Municipal. Segundo a coordenadora da LAV, Gabriela Prado, funcionárias do setor Financeiro e Contábil da prefeitura teriam feito acusações sobre desvios de recursos, colocando em xeque a credibilidade da entidade. 


Gabriela diz que foi parada por uma servidora pública em um supermercado da cidade. A mulher teria questionado seu salário entre outras acusações, que a LAV definiu como “ataques por meio de calúnias, injúrias e difamações oriundas de interpretações equivocadas”. A entidade chegou, inclusive, a acionar o Ministério Público.
Por conta do ocorrido, a LAV protocolou, na Promotoria de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo, uma petição intitulada “Notícia de fato para apuração de crime e ilícito que enseja possível conduta passível de indenização moral coletiva em relação à contadora e funcionária pública Z. C. S. F. 
A representação lembra que, em março de 2024, durante inspeção semestral promovida pelo Ministério Público, foi constatada a precariedade das condições para o acolhimento institucional, decorrente da defasagem nos repasses públicos, cuja situação é vivenciada por todas as entidades. Na oportunidade, a Promotoria de Justiça constatou o valor repassado pelo município à entidade era aproximadamente 1/3 do valor pactuado com municípios vizinhos, ainda que para serviços equivalentes.
Com base nesse diagnóstico, a Promotoria instaurou procedimento administrativo, que resultou na atualização e aumento dos repasses municipais. Segundo a LAV, os ataques da servidora à instituição se iniciaram a partir daí, ainda na gestão Abelardo-Foloni, se estendendo até o momento atual.

“Após essa decisão, a entidade passou a sofrer ataques públicos e institucionais, com base na alegação de que ‘a entidade vem recebendo muito dinheiro’, fomentando um ambiente de hostilidade, especialmente, da própria Administração Municipal, e um inconformismo por parte das demais entidades, uma vez que a narrativa utilizada pela Administração expunha a LAV como a causadora da atualização das demais entidades. A Administração Municipal, por meio de funcionários públicos do setor financeiro, passou a disseminar publicamente a ideia de que os recursos repassados à LAV estariam sendo mal utilizados, sugerindo irregularidades na gestão da entidade, o que colocou em dúvida a idoneidade da instituição, com acusações infundadas de ausência de prestação de contas e de não apresentação de Plano de Trabalho — documentos, todavia, devidamente protocolados e registrados”, diz a representação. 


Neste ano de 2025, de acordo com a LAV, os ataques se intensificaram. A instituição alega que “passou a ser vítima de calúnias e difamações, com alegações falsas sobre supostos desvios de verbas públicas, acerca da remuneração da Coordenadora Geral” (Gabriela Prado). A entidade alega que tal funcionária disseminou que o salário da coordenadora da LAV é de R$ 20 mil mensais, que ninguém saberia o destino dos recursos públicos e ainda criticou o repasse da gestão do SCFV (Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos) para a LAV.

“Ressalte-se que tais alegações têm sido difundidas por servidores públicos lotados nos setores de Contabilidade e Finanças do Município, profissionais que, inclusive, têm acesso privilegiado a informações sigilosas e internas, o que pode configurar quebra de sigilo funcional, além de ferir os princípios da ética, legalidade e impessoalidade”.


A LAV alega que por conta dos boatos, agendou reunião com o Prefeito Municipal, Airton Pegoraro (Avante), para tratar do assunto. No pleito ocorrido em 26 de maio, a entidade fala que “em vez de acolher as preocupações, o Chefe do Executivo foi hostil com os presentes, recomendando que processassem diretamente os servidores autores das declarações”.
No mesmo dia, ainda de acordo com a LAV, a coordenadora Gabriela Prado foi abordada no supermercado pela referida funcionária (Z. C. S. F.).

“Em tom de intimidação, questionou se já havia denúncia contra ela no Ministério Público e reafirmou sua discordância quanto ao valor dos repasses à instituição, o que pode ser comprovado com as imagens da câmera de segurança do Supermercado Michelassi, loja 01, que serão fornecidas após requisição. Tais ações caracterizam perseguição institucional, intimidação e tentativa de descredibilizar a atuação da LAV perante a sociedade e órgãos de controle”.


Ao Ministério Público, a LAV pede que seja expedido ofício ao Supermercado Michelassi, loja 1, requisitando as imagens de câmera de segurança, do dia 26/05/2025, em horário compreendido entre 18h30 e 19h (dia e horário da suposta abordagem da funcionária à coordenadora da LAV), além de solicitar “a adoção das medidas cabíveis para a cessação imediata das condutas difamatórias e injuriosas que vêm sendo dirigidas à entidade”.

 

Notícia-crime cita “perseguição velada” e pede auditoria

Após a entrevista de prefeito e diretora de Finanças transmitida pela 91 FM, o Lar Amor e Vida voltou a acionar o Ministério Público para protocolar “Notícia-crime e requerimento de providências por ataques institucionais contra a LAV”.
No vocabulário jurídico, notícia-crime é a comunicação de um fato criminoso à autoridade competente (polícia ou Ministério Público) para que seja investigado. É o ato de levar ao conhecimento das autoridades a ocorrência de um crime, com o objetivo de dar início à investigação.

“Foram divulgadas informações inconsistentes sobre os recursos alimentares supostamente repassados a LAV. Foi mencionado, por exemplo, o fornecimento de 450 litros de leite para três meses, número que, sem a devida contextualização, induz a população a erro quanto à suficiência do aporte. Contudo, dividindo-se esse volume por 90 dias e por nove crianças, chega-se a apenas 0,555 litro diário por criança, quantidade minimamente necessária, considerando ainda o uso do leite em diversas preparações (...). Notou-se ainda um discurso tendencioso na referida entrevista já que a representante do setor financeiro declarou os quantitativos dos empenhos, reforçando número abusivo e somente declarou contemplar 3 meses atendendo indagação do entrevistador".

A entidade pede que a Promotoria de Justiça instaure procedimento investigatório para apuração de eventuais ilícitos praticados pela atual gestão municipal, alegando que o Executivo “apresenta discurso de fiscalização, entretanto demonstra uma perseguição velada, já que eles têm acesso a todos os repasses efetuados à instituição, bem como as prestações de contas”.
A LAV também pede que o Ministério Público seja mediador em uma audiência de conciliação entre entidade e prefeitura “com o objetivo de cessar os ataques institucionais e restabelecer o diálogo”.
Para sustentar que não existem irregularidades nas contas da instituição, a diretoria da LAV solicita ainda que a Promotoria de Justiça faça uma auditoria no financeiro da entidade, pedindo também uma retratação pública por parte da prefeitura. 
Auditoria é um exame cuidadoso e sistemático das atividades desenvolvidas em determinada organização, cujo objetivo é averiguar se elas estão de acordo com as planejadas e/ou estabelecidas previamente, se foram implementadas com eficácia e adequadas (em conformidade) à consecução dos objetivos.

“É visível a falta de respeito por parte do Poder Público Municipal com a parceria firmada, uma vez que, ao invés de buscar diálogo institucional ou esclarecimentos formais, optou por se manifestar de maneira pública com dados distorcidos, sem observar os parâmetros reais de atendimento, comprometendo inclusive a visão da sociedade em relação ao trabalho desenvolvido”, finaliza. 


Na representação, a LAV anexa prints de conversas via WhatsApp (ao lado) com a diretora de Finanças, Silvia Candido, sustentando que sempre esteve à disposição da administração para sanar possíveis dúvidas. 


Nossa reportagem entrou em contato com a Prefeitura Municipal de Bariri, através da Diretoria de Finanças e Assessoria de Comunicação, mas a administração preferiu não se manifestar sobre o caso. Salientamos que o espaço segue aberto. 

 

Cestas básicas 

Outro ponto de divergências de argumentos entre Prefeitura de Bariri e Lar Amor e Vida diz respeito às cestas básicas. Na entrevista à 91 FM, a diretora de Finanças faz o seguinte comentário: “A própria entidade disse que recebe cestas básicas de outros municípios. Se os outros municípios mandam cestas, podemos diminuir essa quantidade que está acima dos valores nutricionais, contando que, dessas nove crianças, não são todas as refeições que elas fazem na casa”. 

A LAV classificou a fala de Silvia como “equívoco”, alegando que faz parceria com a Diretoria de Assistência Social para envio de cestas básicas a outros programas municipais, visto que a prefeitura não estaria disponibilizando o serviço por falta de licitação. 

“Em decorrência da ausência de processo licitatório nos últimos cinco meses para fornecimento de cestas básicas, a própria instituição tem arcado, com recursos próprios e parcerias com CRAS e CREAS, com a subsistência de famílias acolhidas — fato reconhecido e elogiado informalmente pela Diretora de Assistência Social do município”, alega a entidade.