Presidente do Quilombo se afasta do cargo alegando “motivos políticos”; MP abre inquérito para investigar Edcarlos e associação por suposta prática de improbidade administrativa e enriquecimento ilícito

Presidente do Quilombo se afasta do cargo alegando “motivos políticos”; MP abre inquérito para investigar Edcarlos e associação por suposta prática de improbidade administrativa e enriquecimento ilícito

Em nota enviada à imprensa nesta terça-feira (30), o presidente da Associação Quilombo de Bariri, Edcarlos Pereira dos Santos, comunicou seu afastamento do cargo sem citar prazos. De acordo com o pronunciamento, Edcarlos pretende se dedicar inteiramente ao processo eleitoral 2026. Edcarlos atua como assessor parlamentar do deputado federal Maurício Neves (PP) na região de Bariri.

“Comunico à população, aos veículos de comunicação, aos parceiros e aos amigos que, em reunião realizada com a Diretoria da Associação Cultural Quilombo de Bariri no dia 25 de junho de 2026, apresentei meu pedido de afastamento da Presidência da entidade, decisão que foi acolhida pela diretoria. A decisão foi tomada de forma serena, responsável e em comum acordo com a diretoria, considerando o momento que vivo na vida pública. A proximidade do processo eleitoral exigirá minha dedicação integral, acaba sendo um cenário de grande exposição pública e não quero que nenhuma situação interfira nas atividades da Associação [...]. Meu afastamento é uma demonstração de responsabilidade com a instituição. A campanha eleitoral exigirá presença constante, diálogo permanente e dedicação exclusiva. Quero ter a tranquilidade necessária para enfrentar este processo eleitoral com a mesma aplicação e serenidade de sempre”, disse Edcarlos.

 

Na nota pública, Edcarlos não cita um outro fato que envolve seu nome e o nome da Associação Quilombo: no dia 23 de junho de 2026 dois dias antes da reunião que cravou o afastamento do presidente, o Ministério Público instaurou inquérito civil contra a Associação Quilombo e o próprio Edcarlos, após recebimento de denúncia de improbidade administrativa e enriquecimento ilícito.

O Noticiantes não teve acesso à denúncia que originou o inquérito. Por isso, detalhes de como as supostas práticas de improbidade e enriquecimento ocorreram, até o momento não foram reveladas. A título de conhecimento, a improbidade administrativa é toda ação (ou omissão), praticada por um agente público e o terceiro contra a administração pública ou entidade privada que receba verba pública, com a intenção de obter o resultado ilícito previsto na lei, especificamente o enriquecimento ilícito, dano ao erário ou quando violar os princípios da administração. Já o enriquecimento ilícito é um dos três tipos de improbidade administrativa e consiste em enriquecer ilicitamente, em razão do exercício de cargo, mandato, função, emprego ou atividade na Administração Pública.

 

Cleo Santos assume a presidência

O lugar de Edcarlos será ocupado pela vice-presidente do Quilombo, a jornalista Creusa Evangelista da Silva Santos (Cleo Santos), fundadora do Clube do Livro “Café Com Leitura”.

Em nota enviada à nossa reportagem, o Quilombo afirma que, ao assumir a presidência, Cleo Santos reafirma seu compromisso de dar continuidade ao trabalho desenvolvido pela Associação ao longo de quase quatro décadas de atuação em Bariri, pautado pela valorização da cultura afro-brasileira, pela promoção da igualdade racial e pelo fortalecimento da cultura como instrumento de transformação social.

Recebo esta missão com responsabilidade, serenidade e profundo compromisso com a história construída pela Associação Cultural Quilombo de Bariri. Seguiremos trabalhando com diálogo, dedicação e transparência para fortalecer nossos projetos, ampliar parcerias e preservar a confiança conquistada junto à sociedade”, afirma Cleo.

 

 

Quilombo diz que ainda não foi notificado pelo MP

Sobre a abertura de inquérito civil, a Associação Quilombo também se pronunciou, sustentando que, até o presente momento, não houve notificação oficial por parte do Ministério Público.

“Em relação ao inquérito civil instaurado pela Promotoria de Justiça de Bariri, a Associação Cultural Quilombo de Bariri informa que, até o momento, não foi oficialmente notificada e, por esse motivo, ainda não teve acesso ao conteúdo do procedimento nem ao seu objeto. Diante dessa situação, o departamento jurídico da entidade foi acionado para acompanhar o caso e adotar as providências cabíveis.

A Associação respeita a atuação dos órgãos de fiscalização e reafirma que, tão logo seja regularmente notificada e tenha acesso aos autos, prestará todos os esclarecimentos necessários, colaborando integralmente com as autoridades competentes. A Associação Cultural Quilombo de Bariri, que atua no município desde 1988, segue desenvolvendo normalmente suas atividades, oferecendo cursos, projetos e ações voltados à valorização, preservação e promoção da cultura afro-brasileira.

A nova diretoria reafirma seu compromisso com a transparência, a responsabilidade, a legalidade e a gestão apartidária, mantendo sua atuação exclusivamente voltada ao cumprimento de sua missão institucional. A Associação agradece o apoio de seus associados, parceiros e da comunidade, reafirmando seu compromisso de dar continuidade à trajetória construída ao longo de quase quatro décadas de atuação e de seguir contribuindo para o desenvolvimento cultural e social de Bariri”.

 

Conselho da Comunidade Negra recebeu a denúncia em fevereiro

Também entramos em contato com Clarina de Souza Genaro, presidente dos Conselhos Estadual e Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra.

Por meio de nota oficial, Clarina disse que o conselho recebeu a representação em fevereiro e, com base na gravidade da denúncia, acionou o Ministério Público. O pronunciamento não cita o nome de Edcarlos ou mesmo o nome da Associação Quilombo:

“O Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Bariri torna público que recebeu, em meados de 02/2026, uma denúncia anônima envolvendo fatos graves de questões de improbidade administrativa de determinado gestor de uma importante entidade do município de Bariri, a qual recebe recursos do Poder Público Municipal, gerando-se assim a necessidade de apuração pelos órgãos competentes.

Por esta razão, em observância às atribuições conferidas ao Conselho e aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência que regem a Administração Pública, foram adotadas, de forma imediata, todas as providências administrativas cabíveis no limite de sua competência, procedendo-se ao encaminhamento da referida denúncia para apuração, análise, averiguação e adoção das medidas legais pertinentes das autoridades competentes, qual seja, Ministério Público.

O Conselho destaca que todo o procedimento foi conduzido com absoluta imparcialidade, responsabilidade institucional e rigorosa observância ao dever de sigilo, preservando a confidencialidade necessária ao adequado andamento das apurações e resguardando os direitos e garantias de todas as partes envolvidas.

Neste sentido, o Conselho aguarda pela conclusão dos procedimentos adotados pelo Ministério Público, para orientação das demais diligências necessárias a conclusão do fato concreto, respeitando-se o devido processo legal, o contraditório e ampla defesa, para encaminhamentos junto aos demais órgãos de controle deste Município, para que as ações negativas não reverberem em face do Movimento Negro desta urbe. Por fim, o Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Bariri reafirma seu compromisso inegociável com a promoção da igualdade racial, a defesa dos direitos humanos, o enfrentamento de toda e qualquer forma de discriminação e o fortalecimento das instituições democráticas, confiando na atuação dos órgãos competentes para o devido esclarecimento dos fatos”.