Caso Bruno Guilherme: Acusado de matar vizinho a pauladas no Livramento é absolvido pelo Tribunal do Júri

Caso Bruno Guilherme: Acusado de matar vizinho a pauladas no Livramento é absolvido pelo Tribunal do Júri

“Não importa onde você esteja, se está a um quilômetro de distância ou do outro lado do mundo. Você sempre estará comigo.”

Familiares de Bruno Guilherme Soares dos Santos acompanharam a extensa sessão do Tribunal do Juri ocorrida nesta terça-feira (28), no Fórum de Bariri, trajando camisetas estampas com os dizeres acima e com uma foto de Bruno Guilherme. O jovem foi vítima de um assassinato brutal registrado em 24 de fevereiro de 2023 no bairro Livramento; Bruno morreu aos 26 anos, em via pública, após ser atingido de forma violenta na cabeça por um pedaço de madeira; ele deixou três filhos.

 

O acusado é Jeferson Fernandes Pereira da Silva, natural de Viçosa-AL. Jeferson havia saído de seu estado para tentar a vida EM de São Paulo, instalando-se em Bariri, em uma casa vizinha da de Bruno no Livramento. Ele trabalhava em uma fábrica de cadeiras da cidade na época do crime. Na residência, Jeferson morava apenas com sua filha de 4 anos de idade.

Jeferson fugiu de moto após o crime e demorou mais de um ano para ser localizado. Ele chegou a sair do estado e tentou começar novamente sua vida em Minas Gerais, mas foi preso e denunciado pelo Ministério Público, que pronunciou o réu por homicídio triplamente qualificado (motivo fútil, meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa da vítima).

O júri foi presidido pela juíza Dra. Viviane de Carvalho Singulane. A acusação foi representada pelo promotor dr. Fernando Masseli Helene; já a defesa de Jeferson foi realizada pelo defensor público dr. André Bergamim de Moura e pelo advogado Mateus Costa Ferreira.

O Conselho de Sentença, formado por sete jurados sorteados, foi composto por três homens e quatro mulheres. Na escolha dos jurados, tanto defesa quanto acusação tiveram o direito de três dispensas cada, como de praxe. A defesa usou a tática de fazer o seguinte questionamento aos jurados: “você tem filhos?”. Caso o jurado(a) respondesse de forma positiva, eles aceitavam. Caso contrário, dispensavam.

O Noticiantes não acompanhou o sorteio dos jurados, nem pode registrar a sessão por meio de fotos como das vezes anteriores, já que a juíza só liberou a presença da imprensa em plenário sob estas restrições. Acompanhe a seguir um resumo dos principais momentos do Tribunal do Juri, que durou aproximadamente sete horas (com intervalos).

 

Oitiva de testemunhas

Cinco testemunhas foram ouvidas. O primeiro depoimento foi o da sra. Jaqueline, a ex-mulher de Bruno Guilherme. Ela relatou ter a sensação de que o vizinho (no caso o réu, Jeferson), a fitava constantemente, fato que teria causado ciúmes em Bruno Guilherme.

Segundo a depoente, Jeferson também tentou a adicionar nas redes sociais, enviando solicitações de amizade que teriam sido negadas. Jaqueline disse que a vítima não teve problemas com nenhum outro vizinho, a não ser Jeferson. Que Bruno Guilherme trabalhava como entregador na época do crime.

A mulher também disse que a relação conjugal era complicada, que sofria agressões constantes de Bruno Guilherme. Ela e a vítima teriam vivido juntos por cerca de 10 anos; a relação gerou três filhos.

A segunda oitiva foi da vizinha Nilcéia. Ela confirmou que não visualizou a cena do crime, mas que ouviu fortes barulhos de pancadas. Que se recorda também de ter ouvido Jeferson e Bruno Guilherme discutindo antes das pancadas. Disse que havia uma caçamba de entulhos na rua, e que o caibro madeira utilizada no crime pode ter sido retirada da caçamba.

A vizinha Madalena foi a terceira testemunha ouvida. Ela relatou que estava chegando em sua casa após ir na Igreja, mas ficou na rua conversando com outros vizinhos, quando ouviram as batidas. Inicialmente, Madalena pensou que se tratava de uma briga de casal. Como o barulho das batidas estava muito alto, ela e os outros vizinhos que estavam conversando decidiram subir a rua para ver a origem do som.

Quando chegaram até o local do crime, encontraram Bruno Guilherme já morto, com o rosto desfigurado envolto a uma poça de sangue. Viu também Jeferson saindo de moto confirmou que havia uma caçamba na rua, com vários pedaços de madeira.

A proprietária da residência alugada por Jeferson no Livramento, sra. Natalia, foi a quarta depoente. Ela confirmou que a casa tinha uma janela, na qual era possível visualizar a casa vizinha (de Bruno Guilherme). Disse que chegou a colocar um tapume pra tentar fechar a janela, mas os vizinhos tiravam, reclamando que escurecia a casa. Disse não saber nada que desabonasse a honra de Jeferson, e o classificou como trabalhador e pessoa muito apegada à filha.

A quinta e última oitiva foi o do Policial Militar Claudionor, que atendeu a ocorrência. Disse que os agentes encontraram a vítima já morta, caída na calçada em uma poça de sangue. O militar chamou a atenção para a violência, relatando que havia presença de massa encefálica (parte do cérebro) na parede e também no chão, além de muito sangue. Ao entrarem na casa de Jeferson, constataram que ele havia fugido do local; a criança também não estava presente.

 

O que disse o réu?

Ouvido através de videoconferência por estar preso em Minas Gerais, Jeferson Fernandes Pereira da Silva confessou que golpeou Bruno Guilherme com um pedaço de madeira, mas alegou legítima defesa.

Segundo ele, o vizinho “implicava” com sua presença na rua há meses; ele afirma não saber o motivo da desavença de Bruno Guilherme para com sua pessoa. Relatou a vítima como uma pessoa agressiva, dizendo que ouvia constantemente Bruno Guilherme agredir sua esposa.

Jeferson disse que a vítima fazia o uso de entorpecentes (cocaína) e misturava o pó com bebida alcoólica. Que ficava em estado alterado com o consumo das duas substâncias. Relatou que semanas antes do crime, em um desses episódios em que Bruno Guilherme estava alterado, ouviu o vizinho bater no portão de sua casa com bastante força e ofendê-lo verbalmente.

Ele conta que o episódio assustou muito sua filha de 04 anos que dormia, mas acordou amedrontada com o Barulho. Jeferson alega que não revidou o vizinho nesse episódio. Que apenas acalmou sua filha novamente até que ala dormisse.

No dia do fato, relata que saiu na porta de casa para esperar sua namorada encontrou Bruno Guilherme sentado na calçada vizinha. Alega que a vítima começou a xingá-lo e ameaça-lo, dizendo que iria mata-lo se ele não entrasse. Jeferson diz que rebateu Bruno Guilherme perguntando se ele era “o dono da rua”, e a discussão entre os dois foi crescendo.

Num dado momento, disse que Bruno Guilherme foi até a calçada de sua casa e lhe atingiu com um soco no rosto. Jeferson alega que caiu e, após isso, pegou um pedaço de madeira e atingiu Bruno Guilherme pela primeira vez. Relata que o vizinho se desequilibrou e tropeçou no próprio chinelo com o golpe, caindo de joelhos na calçada. Que neste momento, acertou Bruno Guilherme pela segunda vez, fugindo de moto logo em seguida.

Disse que não sabia que o vizinho havia morrido. Que temia por sua segurança e pela segurança de sua filha, pelas ameaças e ataques constantes da vítima contra sua pessoa.

 

Absolvição

Após oitiva das testemunhas, depoimento do réu e sustentação oral da promotoria (acusação) e da defesa, além de réplica e tréplica, os jurados se reuniram na sala secreta para votação dos quesitos qualificadores. O processo, assim como o voto individual de cada jurado, é sigiloso.

Os jurados consideraram a denúncia proposta pelo Ministério Público improcedente. Com isso, Jeferson foi absolvido pelo crime de homicídio triplamente qualificado. A Promotoria avisou que irá recorrer da decisão.

 

Família se revolta com decisão do júri

A família de Bruno Guilherme se emocionou no momento em que a promotoria exibiu fotos do corpo da vítima no telão. As imagens fortes, exibiram a cabeça da vítima completamente dilacerada pelos golpes fatais sofridos.

Às lágrimas, alguns familiares deixaram o plenário neste momento. Antes da sentença final que absolveu o réu, a família da vítima foi poupada de ouvir a leitura do veredicto, já que o promotor, dr. Fernando, comunicou o grupo da decisão do conselho de sentença de forma prévia. Eles deixaram o plenário indignados e manifestaram revolta nas redes sociais.