QUANDO UMA ESTÁTUA VIRA ARGUMENTO POLÍTICO
Um homem entra em uma igreja, aproxima-se de uma imagem religiosa e a destrói. A polícia é acionada, o homem é preso e, em poucas horas, o episódio deixa de ser apenas um fato policial para se transformar em combustível para a disputa política.
É justamente aí que precisamos parar. Não para relativizar o que aconteceu. Muito menos para defender a destruição de um símbolo religioso. Mas para fazer uma pergunta que parece cada vez mais esquecida: o que está por trás do ato?
A Constituição Federal é bastante clara ao proteger a liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e a proteção aos locais de culto e suas liturgias. Essa proteção não pertence exclusivamente aos católicos. Ela alcança todas as religiões. (Planalto)
Por isso, destruir uma imagem religiosa dentro de uma igreja não é simplesmente uma questão de “opinião”. A liberdade de expressão não transforma o espaço sagrado do outro em território sem regras. O próprio Código Penal protege o sentimento religioso e prevê punição para quem vilipendia publicamente ato ou objeto de culto religioso. (Planalto)
Mas existe uma outra dimensão que também merece atenção. Na ânsia de condenar o ato, muitas vezes esquecemos de olhar para o autor.
Quem é esse sujeito?
O que o levou até aquela igreja? O que aquela imagem representava para ele naquele momento? Havia uma convicção ideológica? Um conflito religioso? Uma necessidade de provocar? Um sofrimento psíquico? Um desejo de chamar atenção? Uma experiência anterior que desconhecemos?
A Psicanálise nos ensina a desconfiar das explicações excessivamente simples para os comportamentos humanos. O ato manifesto nem sempre revela, sozinho, aquilo que o sujeito pretende dizer.
Compreender não é justificar.
Investigar a subjetividade de quem praticou o ato não significa retirar sua responsabilidade. Significa tentar compreender o que existe por trás da conduta para que possamos enxergar o sujeito para além do crime.
E existe outro fenômeno igualmente interessante: o comportamento daqueles que imediatamente transformam o episódio em argumento político.
Uma estátua é destruída e, antes mesmo de sabermos por que o autor fez aquilo, alguém já procura um adversário político para responsabilizar.
Aqui também existe algo a ser pensado. Por que precisamos transformar tudo em uma disputa entre “nós” e “eles”?
Talvez porque seja mais confortável encontrar um inimigo externo do que suportar a complexidade da realidade. Se o responsável pelo ato pertence ao “outro lado”, tudo parece explicado. O acontecimento deixa de ser um fenômeno humano complexo e passa a funcionar como munição para confirmar aquilo que já acreditávamos.
A Psicanálise pode chamar nossa atenção justamente para esse mecanismo: muitas vezes projetamos no outro aquilo que precisamos combater em nós mesmos. Criamos inimigos, construímos narrativas e selecionamos acontecimentos que confirmem nossas próprias convicções.
É uma espécie de infantilização do debate público. A política passa a funcionar como torcida organizada. O fato deixa de importar; importa quem pode ser culpado por ele.
E assim uma imagem religiosa destruída pode ser utilizada por um lado para atacar o outro, enquanto o sujeito que efetivamente praticou o ato desaparece da discussão.
No fim, ninguém mais pergunta sobre ele. Pergunta-se apenas: “De que lado ele está?” Talvez essa seja justamente a pergunta errada.
A pergunta mais importante deveria ser:
“O que aconteceu com esse sujeito para que ele chegasse até aquele ato?”
Punir, quando houver responsabilidade penal, é função da Justiça. Proteger a liberdade religiosa é dever do Estado. Respeitar a fé do outro é um exercício de civilidade.
E tentar compreender o sujeito por trás do ato é, talvez, uma das poucas maneiras de impedir que a sociedade continue produzindo respostas cada vez mais violentas para perguntas que sequer se dispõe a fazer.
Porque, no final, tanto quem destrói um símbolo quanto quem transforma sua destruição em arma política pode estar revelando muito mais sobre si mesmo do que imagina.
Compreender não é justificar. É ir além do ato para tentar encontrar o sujeito.















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