“A experiência do parecer”

“A experiência do parecer”

Constata-se a existência de determinados movimentos existenciais que, quando experienciados por diferentes pessoas, apresentam distinções quanto à forma como são conceitualmente expressos. Assim, ao se manifestarem acerca de algo, suas expressões podem não corresponder integralmente à realidade objetiva, uma vez que, subjetivamente, os fenômenos se apresentam dessa maneira para elas. Tal compreensão aproxima-se da perspectiva fenomenológica, segundo a qual aquilo que se pensa sobre o mundo não existe como algo separado do ser humano. A representação do mundo constitui uma construção singular, resultante da relação estabelecida com os fenômenos, tornando-se única para cada indivíduo, que percebe a realidade a partir dos elementos constitutivos de sua própria história de vida.

Nesse sentido, o que será abordado neste artigo corresponde a uma experiência comum que, sob diferentes formas, pode estar presente nos movimentos existenciais de muitas pessoas. Pode-se citar, por exemplo, a mãe que observa seu filho já adulto e de porte avantajado, mas continua a descrevê-lo como “lindinho”. Embora o filho tenha se transformado ao longo do tempo, essa mãe poderá continuar a percebê-lo dessa maneira no âmbito dos pareceres que constituem sua experiência subjetiva. Nesse caso, quando ocorre a aproximação concreta, isto é, o contato empírico, percebe-se uma diferença entre os dados da experiência objetiva e aqueles provenientes da subjetividade. Assim, o filho que possui um porte físico robusto continua sendo expresso, em seu parecer, como alguém pequeno. Sob essa mesma ótica, podem ser mencionados outros exemplos: uma pessoa que se senta para uma refeição, serve-se de pouca comida e afirma ter comido muito ou, inversamente, alimenta-se em quantidade significativa e entende ter comido quase nada. Esse movimento também pode manifestar-se em determinados ambientes, isto é, em um “espaço geográfico”, no qual diferentes pessoas atribuirão percepções distintas a uma mesma realidade espacial. Pode-se imaginar um salão em que nem todos compreenderão seu tamanho físico da mesma forma. Isso ocorre porque a maneira como esse salão se apresenta para uma pessoa em sua “geografia existencial”, por assim dizer, pode fazê-lo parecer maior ou menor quando comparado à percepção de outra pessoa. Dessa forma, no contexto clínico, observa-se que determinado espaço pode parecer amplo para algumas pessoas, enquanto para outras pode parecer reduzido. Trata-se, portanto, do fenômeno relacionado à forma como as coisas se apresentam à experiência da pessoa.

Até esse ponto, não há maiores dificuldades de compreensão. Contudo, a questão dos pareceres revela-se mais complexa do que inicialmente pode parecer. Alguns pareceres favorecem a abertura de possibilidades existenciais para determinadas pessoas. Para outras, entretanto, as percepções relacionadas à realidade que as circunda tornam-se tão complexas que produzem bloqueios, dificultando a caminhada em direção aos próprios propósitos. No contexto clínico, tais manifestações frequentemente aparecem de maneira direta. Como exemplo, uma pessoa pode relatar sentir-se profundamente sufocada e oprimida pela vida, afirmando que o modo como tudo está funcionando lhe parece desesperador e que o mundo deveria ser diferente. Outra pessoa, vivenciando condições temporais e circunstanciais semelhantes, poderá afirmar que tudo é maravilhoso e que a vida é ampla, oferecendo inúmeras oportunidades.

Ao serem observados, em Clínica, os movimentos existenciais de uma pessoa a partir da Historicidade, dos Exames Categoriais e do modo como os Tópicos se articulam e se relacionam na Estrutura de Pensamento, torna-se possível compreender que, para essa pessoa, utilizando o exemplo anteriormente apresentado sobre o espaço geográfico, uma experiência densa de vida pode influenciar significativamente sua percepção do ambiente. Assim, mesmo estando em um espaço aconchegante, pequeno, com móveis próximos, bem organizados e confortáveis, esse ambiente poderá ainda parecer distante e demasiadamente amplo, produzindo sentimentos de vazio e solidão. Para outra pessoa, entretanto, a mesma configuração ambiental poderá favorecer movimentos de liberdade, acolhimento e leveza existencial. Já uma terceira pessoa poderá perceber esse mesmo espaço como sufocante, experimentando a sensação de que o ambiente se fecha sobre si, circunstância que pode inclusive desencadear manifestações fóbicas.

Da mesma forma, algumas pessoas podem vivenciar essas realidades de maneira oposta. Em um ambiente amplo e espaçoso, por exemplo, alguém poderá afirmar sentir-se inseguro, pequeno ou vazio. Esse tipo de experiência também pode ocorrer de maneira indireta, sem que a pessoa consiga identificar ou compreender que o próprio ambiente está contribuindo para tais sentimentos. Nesses casos, o lugar pode favorecer a sensação de isolamento, levando-a a perceber os outros como distantes, afastados ou inacessíveis. Todos esses exemplos podem estar relacionados ao que se denomina “geografia existencial”.

Cabe ainda uma observação referente às Interseções de Estruturas de Pensamento, isto é, ao processo de conversação entre duas ou mais pessoas. Um mesmo espaço geográfico pode tornar-se subjetivamente “menor” ou “maior” a partir dos pareceres de cada indivíduo. Isso pode influenciar as relações estabelecidas, favorecendo ou dificultando a proximidade, a abertura e a compreensão mútua, dependendo de como a realidade se apresenta para cada pessoa. É necessário considerar, contudo, que os aspectos discutidos neste artigo não possuem caráter determinista, uma vez que tudo dependerá da relevância e do peso subjetivo que tais pareceres assumem para cada indivíduo.

Poderiam ser apresentados inúmeros outros exemplos, sob diferentes perspectivas e contextos. Todavia, este texto constitui apenas um breve ensaio introdutório acerca desse fenômeno.