Você quer justiça ou apenas que o seu lado vença?
Existe uma pergunta que talvez seja mais incômoda do que qualquer acusação política: você quer justiça ou apenas quer que o seu lado vença?
Basta observar o debate público para perceber como determinadas disputas rapidamente deixam de ser discussões sobre fatos e passam a funcionar como verdadeiras guerras de torcida.
De um lado, aqueles que defendem Alexandre de Moraes. Do outro, aqueles que defendem André Mendonça. E, antes mesmo que os fatos sejam devidamente analisados, muitos já escolheram quem é o herói e quem é o vilão.
O problema não está em ter uma opinião. O problema começa quando a opinião se transforma em identidade.
Quando isso acontece, discordar de uma ideia deixa de ser suficiente. É preciso desqualificar quem pensa diferente. O adversário deixa de ser alguém que possui outra interpretação dos fatos e passa a representar uma ameaça que precisa ser derrotada.
É justamente nesse ponto que a psicanálise pode oferecer uma contribuição importante para compreender o fenômeno.
Nós não defendemos apenas ideias. Muitas vezes, defendemos aquilo que essas ideias representam para nós.
Nossas convicções políticas, religiosas e morais podem se transformar em partes importantes da imagem que construímos sobre quem somos. Assim, quando alguém questiona aquilo em que acreditamos, podemos experimentar o questionamento não como uma crítica a uma ideia, mas como uma ameaça ao próprio eu.
E é aí que surge a dificuldade de reconhecer o erro.
Se meu grupo estiver errado, talvez eu também precise admitir que errei. E, para o psiquismo, isso pode ser muito mais doloroso do que parece.
É mais confortável encontrar um culpado do lado de fora.
Por isso, a discussão pode sofrer uma transformação silenciosa. A pergunta deixa de ser:
“O que realmente aconteceu?”
E passa a ser:
“Isso favorece ou prejudica o meu lado?”
Essa mudança parece pequena, mas produz consequências enormes.
A partir dela, uma denúncia contra alguém que pertence ao meu grupo pode ser relativizada. Uma conduta semelhante praticada pelo adversário pode ser tratada como imperdoável.
A mesma atitude recebe julgamentos completamente diferentes dependendo de quem a praticou.
Nesse momento, já não estamos necessariamente diante de uma busca pela justiça. Estamos diante da necessidade de confirmar uma narrativa.
E talvez essa seja uma das formas mais perigosas de cegueira coletiva: quando a pessoa precisa que o outro esteja errado para continuar acreditando que ela própria está certa.
O fenômeno não pertence exclusivamente à esquerda ou à direita. Não pertence a um partido, a um ministro ou a uma ideologia. Ele pertence ao ser humano.
A polarização apenas oferece o terreno perfeito para que esse mecanismo se manifeste.
Justiça exige uma disposição desconfortável: a capacidade de reconhecer a possibilidade de que o adversário possa estar certo e o nosso lado possa estar errado.
Isso não significa abandonar princípios. Significa submetê-los aos fatos.
No campo da justiça, não deveria importar quem é o acusado, quem é o ministro, qual é o partido ou qual é a ideologia.
Se houve crime, abuso ou ilegalidade, deve haver responsabilização.
Se não houve, deve haver o reconhecimento da inocência.
O verdadeiro compromisso com a justiça começa justamente quando deixamos de perguntar “quem venceu?” e passamos a perguntar:
“O que é verdadeiro?”
Talvez a pergunta mais importante, portanto, não seja sobre Alexandre de Moraes ou André Mendonça.
Seja sobre nós mesmos:
Quando defendemos uma posição, estamos defendendo a justiça ou apenas tentando provar que o nosso lado nunca pode estar errado?















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