“Cavalo de Troia”: Nelson Febraio coordena operação do Gaeco que expõe fraude bilionária na licitação do lixo em Bauru; Dois secretários e outros cinco são presos
“Estou acompanhando, desde as primeiras horas desta quarta-feira (9), a operação realizada pelo Ministério Público, que envolve a Secretaria do Meio Ambiente. Determinei, de imediato, que toda a administração municipal esteja à inteira disposição das autoridades competentes, garantindo acesso às informações e aos documentos necessários e total colaboração para o esclarecimento dos fatos. Como prefeita, tenho compromisso com a transparência, com a responsabilidade e, acima de tudo, com a cidade de Bauru. Neste momento, estou me inteirando de todos os fatos com a seriedade que a situação exige. As investigações devem seguir seu curso, com respeito às instituições. Assim que tivermos informações oficiais que possam ser compartilhadas, manterei vocês informados.” – Suéllen Silva Rosim (PSD), Prefeita Municipal de Bauru.
O Promotor de Justiça baririense, dr. Nelson Aparecido Febraio Junior, do Ministério Público do Estado de São Paulo, coordenou uma megaoperação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), que expôs um esquema bilionário de fraude em licitação na Prefeitura Municipal de Bauru. Batizada de Operação “Cavalo de Troia”, em alusão ao mito grego, a ação foi deflagrada nas primeiras horas da manhã de quarta-feira (09), em pelo menos três repartições públicas bauruenses: Secretaria de Meio Ambiente, Secretaria de Negócios Jurídicos, e na sede do governo, na Praça das Cerejeiras.
A investigação desarticulou uma fraude licitatória na concessão do sistema de gestão integrada dos resíduos sólidos urbanos do município de Bauru. A contratação tem previsão de durar 30 anos, com valor global estimado em R$ 5.259.651.116,06 (cinco bilhões, duzentos e cinquenta e nove milhões, seiscentos e cinquenta e um mil, cento e dezesseis reais e seis centavos), em números de fevereiro de 2026. Trata-se da maior contratação pública já projetada na história de Bauru.

Houve cumprimento de 20 mandados de busca e apreensão e sete de prisão temporária, assim como afastamento de servidores públicos, medidas cautelares diversas, sequestro de bens e suspensão judicial de contratos e da licitação. Os presos são:
- Vitor João de Freitas Costa, secretário de Negócios Jurídicos;

- Cilene Bordezan, secretária de Meio Ambiente;

- Sara Moura de Jesus, secretária adjunta de Meio Ambiente;
- Gisele Moretti, presidente da Associação dos Catadores de Reciclagem de Bauru (Ascam);

- Valdomiro Pereira da Silva Filho, empresário;
- Hamilton Libório Agle, proprietário da Estre Ambiental;
- Talita de Andrade Soares Chieregatti, funcionária da Estre Ambiental;
Durante as diligências do Gaeco foram apreendidos R$ 240 mil em espécie na casa do secretário de Negócios Jurídicos, Vitor João de Freitas Costa. Em conjunto, houve o cumprimento de diligências também na Operação Mobius, visando a esclarecer irregularidades no contrato de coleta seletiva.
Segundo o Gaeco a dimensão econômica e duração do contrato bilionário tornam especialmente graves os indícios de captura da licitação por interesses privados.
O esquema
Elementos reunidos na investigação indicam que a fraude não se limitava à inclusão de uma cláusula restritiva no edital. O esquema teria sido construído por camadas, desde a concepção da concessão e a elaboração dos estudos técnicos até a definição das exigências de habilitação e pontuação, passando pela contratação de consultorias, a preparação de documentos oficiais e a reação diante de impugnações e potenciais concorrentes. A finalidade era assegurar vantagem indevida à empresa investigada, interessada em vencer o certame.

As apurações apontam, ainda, a existência de um núcleo formado por agentes públicos, dirigentes e funcionários de empresa privada, consultores e intermediários, com divisão de funções e atuação coordenada. Foram identificados indícios de pagamentos e vantagens, circulação reservada de documentos, interferência na elaboração de manifestações administrativas e estratégias destinadas a reduzir a competição e preservar o direcionamento do certame.
Ficou igualmente demonstrada uma tentativa de expansão do esquema para a cooptação de agentes públicos e a neutralização de mecanismos de controle. Os investigados chegaram a levantar informações pessoais de um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, supostamente relacionado à relatoria de procedimento naquele órgão.
Comunicações interceptadas revelaram planos de aproximação e infiltração de pessoas em instituições públicas, com o objetivo de obter informações privilegiadas e viabilizar a oferta de vantagens indevidas. Essas investidas integram, segundo a investigação, uma arquitetura mais ampla de aproximação, influência e possível corrupção de diversos agentes públicos, inclusive em projetos de outros municípios, também com valores bilionários.
Cavalo de Troia
O nome da operação, Cavalo de Troia, faz referência à principal estratégia identificada durante as investigações que foi a atuação na administração municipal de uma secretária que mantinha vínculos profissionais e econômicos com a empresa beneficiada no processo.

De acordo com o Gaeco, a partir dessa posição estratégica, interesses privados teriam passado a influenciar internamente a formatação e a condução do procedimento, permitindo que decisões formalmente públicas fossem discutidas e preparadas em articulação com representantes empresariais.
A investigação encontrou também, na estrutura da secretaria, outra profissional anteriormente vinculada à empresa alvo dos trabalhos desta quarta.
Exonerados
A Prefeitura de Bauru anunciou a exoneração de quatro investigados na operação “Cavalo de Tróia”. Foram exonerados dos cargos os secretários municipais de Meio Ambiente e Bem-Estar Animal, Cilene Chabuh Bordezan; e de Negócios Jurídicos, Vitor João de Freitas Costa; além da secretária-adjunta de Meio Ambiente e Bem-Estar Animal, Sara Moura de Jesus. Os três foram presos pela na ação do Gaeco.
O Executivo informou que também exonerou do cargo em comissão de coordenador de Políticas Públicas para o Meio Ambiente Roldão Neto, que chegou a ser levado à Central de Polícia Judiciária (CPJ) para prestar esclarecimentos, mas foi liberado.
Posicionamentos da Prefeitura de Bauru e Ascam
Em nota enviada a imprensa, a Prefeitura Municipal de Bauru, por meio de sua assessoria de comunicação, fez o seguinte pronunciamento:
“A Prefeitura de Bauru informa que respeita a atuação institucional do Ministério Público do Estado de São Paulo e o trabalho desenvolvido no âmbito das investigações conduzidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO). A Administração Municipal irá colaborar integralmente com as autoridades competentes e permanece à disposição para fornecer documentos, informações e todos os esclarecimentos que forem solicitados no decorrer das investigações.
Até o momento, a Prefeitura não foi oficialmente informada sobre o inteiro teor do objeto da investigação, tampouco teve acesso aos elementos que fundamentaram as diligências realizadas nesta quarta-feira (09). Diante disso, a Administração Municipal considera necessário aguardar o conhecimento formal dos fatos e dos documentos relacionados à investigação antes de se manifestar sobre questões específicas. A Prefeitura reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência e o interesse público e prestará todo o apoio necessário para o completo esclarecimento dos fatos.”
Também por meio de nota oficial, a Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Bauru e Região (Ascam) se pronunciou:
“Recebemos com serenidade os acontecimentos e confia na atuação das instituições e da justiça, na apuração técnica, responsável e imparcial dos fatos. Ao mesmo tempo, é necessário registrar, de maneira clara e inequívoca, que a Ascam e sua presidente não possuem qualquer participação ou responsabilidade nos crimes que estão sendo objetos de apuração. A existência de uma investigação e a adoção de medidas de natureza cautelar não representam reconhecimento de culpa, em um Estado Democrático de Direito, responsabilidades são pessoais, devem ser individualizadas e somente podem ser estabelecidas a partir da análise concreta dos fatos e das respectivas provas. Por essa razão, a Ascam considera imprescindível que, neste momento, sejam evitadas associações precipitadas entre a entidade, sua presidente e práticas criminosas cuja existência, autoria e responsabilidades ainda estão sendo apuradas Ascam continuará exercendo suas atividades com responsabilidade e transparência, respeitando o trabalho das autoridades e confiando que o avanço das apurações permitirá a correta compreensão dos acontecimentos e a adequada individualização de eventuais responsabilidades. A verdade dos fatos deve prevalecer”
Vereadores de Oposição rejeitam CEI e sustentam Comissão Processante que pode cassar mandato de Suéllen

A oposição na Câmara Municipal de Bauru reagiu no final da tarde de quarta-feira (09) à proposta de criação de uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) para investigar as denúncias envolvendo o setor de limpeza pública. Em manifesto divulgado após a operação do Gaeco, os vereadores sustentam que o caso exige uma investigação de natureza político-administrativa mais ampla.
Segundo o grupo formado por Estela Almagro (PT), Eduardo Borgo (Novo), José Roberto Segalla (União), Junior Lokadora (Podemos) e Márcio Teixeira (PL), a CEI apresentada pela situação seria um “subterfúgio para blindar a prefeita” e impedir a apuração de eventual responsabilidade da chefe do Executivo. Para os oposicionistas, diante da gravidade dos fatos revelados pelo Ministério Público, o caminho adequado seria a instauração de uma Comissão Processante.
“Confiamos no trabalho sério e independente desenvolvido pelo Gaeco”, afirmam os vereadores no documento. Na avaliação da oposição, os elementos que vieram a público são suficientes para fundamentar a abertura de uma Comissão Processante na Câmara. A manifestação ocorre no mesmo dia em que a investigação do Gaeco ganhou dimensão política no município, com a prisão de integrantes do primeiro escalão da administração municipal. Os vereadores afirmam que os fatos precisam ser analisados com “transparência, independência e todo o rigor que o caso exige”.
A principal divergência entre os grupos políticos da Câmara, portanto, está no instrumento de investigação. Enquanto a proposta de CEI busca concentrar no Legislativo a apuração dos fatos relacionados ao escândalo do lixo, a oposição defende que a Câmara avance para um procedimento que possa avaliar também eventual responsabilidade da prefeita.
Ao anunciar que não assinará o pedido de CEI, a oposição sinaliza que pretende levar o debate para além da apuração dos contratos e procedimentos administrativos relacionados ao lixo. O foco, segundo o manifesto, deve incluir a eventual responsabilidade político-administrativa da chefe do Executivo, prefeita Suéllen Rosim. Uma possível CP aberta contra Suéllen pode resultar, ao final dos trabalhos da comissão, na cassação do mandato da prefeita.
















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