Quando ser útil vira uma forma de ser amado
Existe uma frase que pode incomodar, mas também provocar uma importante reflexão: as pessoas não gostam de você; elas gostam da sua utilidade.
É claro que essa afirmação não deve ser tomada como uma verdade absoluta. Existem relações construídas pelo afeto, pelo respeito e pelo desejo genuíno de estar com o outro. Mas, em algumas relações, aquilo que oferecemos pode ocupar um espaço maior do que aquilo que somos.
Talvez você conheça alguém que nunca consegue dizer “não”. Está sempre disponível, resolve problemas, ajuda, empresta, atende pedidos e coloca as necessidades dos outros acima das próprias. Quando percebe, está exausto, ressentido e, ainda assim, continua dizendo “sim”.
Por quê?
A psicanálise permite pensar esse comportamento para além da simples dificuldade de impor limites. Pode existir, por exemplo, uma necessidade intensa de aprovação, medo de rejeição, medo de abandono ou dificuldade de reconhecer e sustentar o próprio desejo diante das expectativas do outro.
Em determinadas situações, ser útil pode se transformar em uma espécie de garantia inconsciente de pertencimento.
“Se eu ajudar, vão gostar de mim.”
“Se eu não decepcionar ninguém, não vão me abandonar.”
“Se eu estiver sempre disponível, continuarei sendo importante.”
O problema aparece quando essa lógica começa a organizar os relacionamentos.
Imagine alguém que passou anos dizendo “sim” para tudo. Um dia, decide estabelecer limites. Recusa um pedido, deixa de resolver um problema que não é seu ou simplesmente diz que não pode estar disponível.
E então algumas pessoas se afastam.
Isso pode ser doloroso. Mas também pode revelar algo sobre aquela relação.
Talvez o afastamento não aconteça porque você mudou para pior. Talvez aconteça porque a dinâmica da relação mudou.
Quem estava acostumado a receber sua disponibilidade pode interpretar seu limite como rejeição. Quem se beneficiava constantemente da sua submissão pode reagir com irritação. E aquele que confundia sua generosidade com obrigação pode simplesmente deixar de procurar você.
Nesse momento, surge uma questão fundamental:
Por que eu tenho tanto medo de deixar essas pessoas irem?
Essa pergunta é mais profunda do que parece.
Às vezes, o medo de perder o outro está relacionado ao medo de descobrir quem somos quando deixamos de ocupar o lugar daquele que serve, resolve, agrada e sustenta.
Na perspectiva psicanalítica, colocar limites não significa deixar de se importar com o outro. Significa reconhecer que o desejo do outro não pode ocupar permanentemente o lugar do próprio desejo.
Dizer “não” pode ser difícil porque, muitas vezes, não estamos apenas recusando um pedido. Estamos enfrentando uma fantasia: a de que, se não formos úteis, deixaremos de ser amados.
Talvez algumas pessoas realmente se afastem quando você começar a estabelecer limites.
Mas isso também pode ser uma oportunidade para descobrir quais relações estavam baseadas em reciprocidade e quais dependiam da sua disponibilidade.
No fim, talvez a pergunta não seja apenas quem gosta de você.
Talvez seja:
Você consegue acreditar que pode ser amado sem precisar ser útil o tempo todo?















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